Nas últimas décadas, o mundo se tornou uma rede complexa de relações comerciais entre diversos países. Esse movimento de aceleração da globalização econômica foi decisivo para o Brasil se tornar um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo. Só que vender ao exterior é mais complexo do que fornecer aos mercados locais. É nesse ponto que entram os chamados adidos agrícolas, espécie de representantes do agro brasileiro no mundo.
Para entender essa mudança de
percurso que ocorreu na agropecuária brasileira e a contribuição dos adidos
nesse panorama, é preciso voltar ao Brasil da segunda metade dos anos 1990. O
ranking de venda ao exterior do agro naquela época era formado por complexo
soja, produtos florestais, café, complexo sucroenergético, fumo e carnes. A
movimentação total chegava a US$ 23,3 bilhões. Após mais de 20 anos, em 2019, o
valor deu um salto de 314% e bateu US$ 96,8 bilhões. O complexo soja se manteve
na liderança, seguido por carnes, produtos florestais, milho, complexo
sucroenergético, café, fibras e produtos têxteis. Somente as carnes, por
exemplo, movimentaram US$ 1,5 bilhão em 1997, com salto para US$ 16,6 bilhões
em 2019 (+947%). A soja também cresceu significativamente, de US$ 5,5 bilhões
para US$32,6 bilhões (+486%). Tudo isso com participação direta do Paraná,
maior produtor de frango do país, um dos maiores de suínos e o segundo maior de
soja.
Para consolidar essa reviravolta
foi preciso gastar muita sola de sapato, papel de passaporte e investimento financeiro
por parte de entidades representativas de produtores rurais e de outros elos da
cadeia produtiva. Muita energia foi despendida para o Brasil figurar como
importante player nas negociações internacionais. A união do setor produtivo
priorizou duas frentes: fazer os ajustes necessários internamente, da porteira
até o porto; e concretizar os negócios lá fora.
Diagnóstico do cenário
Nesse sentido, é preciso olhar
para o papel de entidades como a Federação da Agricultura do Estado do Paraná
(FAEP), que sempre acompanhou de perto as negociações para o acesso a novos
mercados. Muitos dos levantamentos, relatórios, reuniões e negociações que
abriram portas às empresas do Estado tiveram como pontapé inicial prospecções
feitas sob a batuta da entidade.
Antonio Poloni, hoje assessor da
FAEP, ocupou a função de secretário estadual de Agricultura e Abastecimento nos
anos 1990. Segundo ele, aquele foi um período intenso, de derrubada de
barreiras sanitárias, promoção dos produtos agropecuários brasileiros e de
conquista de novos mercados. Tudo isso por meio de missões, viagens e reuniões,
muitas delas com a presença da FAEP. Em algumas ocasiões, no entanto, as
comitivas brasileiras encontravam problemas em abrir portas ao diálogo.
“Em uma das viagens, estivemos na União Europeia. Fizemos uma reunião com 40 importadores de soja na embaixada do Brasil, em Paris [França]. Tivemos dificuldade de condução desse processo porque, até então, não tinha um representante brasileiro do agronegócio na embaixada. A partir de tropeços, acendeu a necessidade de apoio, alguém que nos ajudasse a organizar esse processo, para que as viagens e contatos gerassem ainda mais resultados”, lembra Poloni.
Necessidade de mudança
Com base nisso, a FAEP foi
protagonista em colocar em pauta a necessidade de mudar a forma de diálogo do
agronegócio brasileiro com outros países. O tema foi colocado ao governo
brasileiro oficialmente em uma reunião entre a entidade paranaense e Reinhold
Stephanes, então ministro da Agricultura (gestão 2007/10).
“Quase todos os ministros que me
antecederam tentaram, mas a reação do Itamaraty era muito forte. Quando eu
assumi o ministério, pensei: ‘agora é o momento’. Mas tive que convencer o
presidente da república, afinal eu estava criando uma nova carreira”, recorda
Stephanes.
Na década de 1970, quando Stephanes trabalhou em Brasília como funcionário do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), já havia identificado que os principais países com quem o Brasil mantinha relações tinham adidos agrícolas nas respectivas embaixadas. “Ainda não éramos essa potência agrícola que somos hoje, mas eu questionava por que a gente não tinha adidos”, lembra.
Decreto publicado
A função de adido agrícola foi
aprovada pelo Decreto 6.464, publicado no Diário Oficial da União, em maio de
2008, após negociação entre o Mapa, por meio da Secretaria Executiva, e o
Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Planejamento, Orçamento e
Gestão (MPOG).
Os adidos surgiram apenas em 2011, mas logo começaram a ajudar o agronegócio brasileiro. Em 2010, antes de esses profissionais colocarem a mão na massa, o Brasil movimentou US$ 76 bilhões em produtos do agro. Já em 2011, o resultado foi de US$ 94 bilhões, aumento de 24%.
“Criamos num primeiro momento 12 [adidos]. Hoje são 24. Isso significa que os ministros que me sucederam viram que se trata de algo importante”, avalia Stephanes. “A partir da criação dos adidos agrícolas, a coisa mudou completamente. Fomos em uma missão à Rússia e quem organizou a nossa agenda, fez os contatos, foi o adido. Até porque eles são pessoas de carreira, que conhecem a fundo o agro brasileiro e mergulham na cultura, hábitos, especificidades de consumo, conjuntura econômica e outros detalhes locais importantes às negociações. É uma referência no exterior que nós temos. Foi uma das grandes vitórias com a participação da FAEP”, destaca Ágide Meneguette, presidente do Sistema FAEP/SENAR-PR.
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Olhos dos adidos
A FAEP participou do 2º Encontro
dos Adidos Agrícolas Brasileiros, em setembro deste ano, com os adidos. Ao
todo, 21 profissionais fizeram resumos dos principais assuntos em discussão
envolvendo produtos do agronegócio nos países em que atuam: Rússia, África do
Sul, Canadá, China, Cingapura, Tailândia, Peru, Itália, Colômbia, Bélgica, Estados
Unidos, México, Coreia do Sul, Indonésia, Japão, Argentina, Vietnã, Marrocos,
Egito, Reino Unido e Índia.
Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) da FAEP, que acompanhou os encontros com cada adido, tratou de pontos centrais da relação do Paraná com os países, além de avaliar oportunidades e prospectar novos negócios. “Nosso interesse maior foi construir uma visão panorâmica das nações, com as principais dificuldades para acessar os mercados, possíveis adequações que nossa cadeia produtiva precisa promover, além de oportunidades para o agro parananese”, explica Ferreira.
Algumas conquistas por meio de atuação dos adidos
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Apetite asiático
O continente asiático tem uma
alta demanda pelos produtos do agronegócio nacional. O principal parceiro
comercial, a China, é destino de 44% de tudo que o Paraná exporta. Apesar
disso, os compradores chineses têm uma pauta pouco diversificada, centrada no complexo
soja, carnes e produtos florestais. Mesmo assim, é um país estratégico do ponto
de vista comercial.
Depois de enfrentar uma crise
sanitária com focos de Peste Suína Africana e, posteriormente, ter sido o
epicentro da pandemia do novo coronavírus, o gigante asiático foi às compras
para repor seus estoques de alimentos. Isso fez diversos produtos da pauta de
exportação brasileira baterem recordes de embarques neste ano. As exportações
de açúcar, por exemplo, cresceram 3.000% nos primeiros oito meses de 2020, na
comparação com o mesmo período do ano anterior.
Do outro lado do Mar Amarelo está
a Coreia do Sul, quinto principal cliente do Paraná. Com uma pauta de
importação centrada no farelo de soja e nas carnes, 80% das importações
coreanas de frango vêm do Brasil. Uma grande oportunidade que se reserva ao
agro paranaense neste mercado é a provável liberação do comércio de suínos após
o Estado obter o certificado internacional de área livre de febre aftosa sem
vacinação. Hoje, a Coreia importa este tipo de carne apenas de Santa Catarina,
único Estado brasileiro que possui este status sanitário.
Trata-se de um mercado
significativo. A Coreia do Sul é o terceiro maior importador de carne suína do
mundo, além de ser um mercado que paga bem por produtos que se enquadram na
qualidade demandada. Segundo o adido brasileiro no país asiático, Gutemberg
Barone, apesar de ser bastante exigente nos critérios sanitários, a Coreia do
Sul tem uma situação pior do que a do Brasil internamente. “Não tem nem status
reconhecido junto à OIE [Organização Mundial da Saúde Animal], mas cobram dos
outros”, explica. Além disso, nos últimos anos houve casos de febre aftosa nos
rebanhos coreanos, que levaram as autoridades a sacrificar milhões de animais.
Segundo Barone, existem as
oportunidades para abertura de novos mercados na Coreia do Sul para queijos,
sorvetes e também para tilápia, setor em que o Paraná se destaca como maior
produtor nacional.
Ao seguir mais para o Sul no
continente asiático, o Vietnã aparece como 22º maior parceiro comercial do
Paraná, com demanda centrada no complexo soja e na carne suína, que tem no
Brasil seu principal fornecedor. Recentemente, o país habilitou duas plantas
paranaenses para o fornecimento de aves, sendo uma em Cascavel (Oeste) e outra em
Jaguapitã (Norte).
Entre 2019 e 2020, nossas
exportações de carne suína para os vietnamitas cresceram 316%, passando de US$
6 milhões para US$ 25 milhões. A explicação está em um surto de peste suína
africana que reduziu os rebanhos daquele país. Atualmente, está sendo negociada
a entrada de bovinos vivos e melões brasileiros no mercado vietnamita.
África das oportunidades
As oportunidades de negócio para
o continente africano estão concentradas, especialmente, nos dois extremos do
continente. No Nordeste, o Egito já é um parceiro comercial consagrado do
Paraná – 26º principal comprador de produtos paranaenses. Em uma de suas
missões internacionais, em 2019, a própria ministra da Agricultura, Tereza
Cristina, esteve no Cairo para conversar com autoridades locais sobre
possibilidades de novos negócios. Há a expectativa, inclusive, da abertura aos
lácteos brasileiros.
Um dos maiores interesses dos
egípcios está na importação de carnes. O frango paranaense é bastante
competitivo na terra das pirâmides, mesmo havendo uma taxação de 30% para as
operações envolvendo o alimento. Outro destaque nas proteínas animais é a
demanda por bovinos vivos, para serem abatidos internamente seguindo as
tradições culturais locais. Negócios nessas áreas têm especial potencial de
crescimento a partir do reconhecimento do Paraná como área livre de febre
aftosa sem vacinação pela OIE.
Na Costa Noroeste da África, o
Marrocos desponta com potencial de gerar novos negócios, principalmente pelo
seu ritmo firme de crescimento entre 3% a 4% ao ano. Apesar de ser apenas o 90º
na pauta de exportações do Paraná, há oportunidades em produtos de maior valor
agregado. Rações para animais de companhia, frutas frescas e cafés especiais
estão no radar dos marroquinos. Com forte vocação turística e uma classe média
emergente, itens mais sofisticados de alimentação têm tido forte pressão na
demanda pelo país.
No Extremo Sul do continente
africano, a África do Sul é o 30º principal comprador de produtos paranaenses,
com destaque para as proteínas animais. Pesa contra, no entanto, o
protecionismo. O frango brasileiro, por exemplo, precisa pagar tarifa de 62%
para ingressar no país. Há uma negociação em curso para promover acordos de
livre comércio entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral, que une
outros quatro países (Namíbia, Botsuana, Lesoto e Suazilândia), que pode abrir
portas para novos negócios.
Europa e América do Norte
Com a assinatura do acordo de
livre comércio entre Mercosul e União Europeia, o agronegócio paranaense concentra
expectativas em uma grande oportunidade para ampliar as exportações. Com a
política de cotas e tarifas zero sobre 81,8% dos produtos agropecuários
exportados pelo Mercosul, a estimativa é de que se abram mais portas para as
proteínas animais, etanol e açúcar paranaenses. Em contrapartida, em um
primeiro momento, os lácteos podem sofrer com o aumento das importações pelo
Brasil. Após as fases de revisão jurídica e tradução, o acordo deve ser enviado
para discussão entre os países-membros ainda em outubro deste ano. A previsão é
que seja ratificado até o final de 2021.
Com a saída do Reino Unido da
União Europeia, parte das expectativas se voltam aos britânicos. O setor de
frutas desponta como uma grande oportunidade, assim como produtos regionais,
orgânicos e com certificação sustentável. Ainda, há movimentação para abertura
de mercado para carne suína, pescados, lácteos e ovos por meio de prelisting,
ou seja, listas pré-autorizadas de estabelecimentos exportadores. Para os
britânicos, a principal variável de compra é o preço, principalmente em relação
às carnes.
Na América do Norte, o México
aparece como 23º parceiro comercial dos paranaenses, com destaque para produtos
florestais, seguido pelo complexo soja e carnes. No final do ano passado, o
arroz brasileiro fez sua estreia no mercado mexicano, que domina a importação
do produto na América Latina – o país compra mais de 800 mil toneladas de arroz
por ano, o que corresponde a 80% do que são consumidos pelos mexicanos. Para a
exportação do cereal pelo Brasil, há uma cota de 150 mil toneladas com tarifa
entre 7,2% e 16,8%. O feijão também possui uma alta demanda de consumo no
México, o que representa uma oportunidade interessante para o Paraná, maior
produtor nacional do grão.
Ao Norte da fronteira, está o 2º
maior comprador do Paraná, os Estados Unidos, cujas importações são centradas
em produtos florestais, principalmente madeira, e café. De janeiro a agosto
deste ano, as exportações paranaenses para os norte-americanos totalizaram US$
513 milhões. Em relação à possibilidade de um acordo com o Mercosul, além da
necessidade de pressão de empresas dos setores privados, há uma dependência
muito grande do interesse político do Congresso norte-americano.
Principais atividades dos adidos
– melhorar condições de acesso de
produtos do agro brasileiro nos mercados dos países e regiões em que atuam;
– prospectar novas oportunidades
de negócio;
– fazer relatórios com análises
sobre o mercado local e tendências de cada país;
– promover os produtos
brasileiros do agro no mercado local;
– antecipar possíveis mudanças
nas políticas sanitárias e fitossanitárias de outros países;
– indicar e facilitar contatos
com especialistas, importadores e autoridades locais a brasileiros e a
estrangeiros interessados em saber mais sobre nosso país.
Fonte: Decreto 6464 de 2008
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A notícia Quem são os embaixadores do agronegócio? Conheça o trabalho dos adidos agrícolas apareceu pela primeira vez em Sistema FAEP.
Fonte: Sistema FAEP